Trem

14:32


Sento-me no banco, apoio o rosto na mão e fico parada, imóvel, observando a vista da janela. O trem treme, começa a se mover, a estação, os viajantes, as malas e os mendigos ficam para trás e meus olhos agora veem borrões que as estradas, postes e prédios abandonados se transformam quando os vejo por esta janela. Não tiro meus olhos dela nem por um minuto, e logo, observo os borrões tornarem-se verdejantes, o paraíso das planícies recentemente alimentadas pelas chuvas de verão que tão bem se fazem presentes entre as cidades da região metropolitana. O vermelho trem tem aquele ar de antiguidade das máquinas de escrever, mas que assim como elas, dando-nos culpa por pensarmos nos livrar deles, apesar de nossos corações serem, em algum grau, afeiçoados a eles; no entanto, minha afeição por este transporte relaciona-se simplesmente ao momento solitário de sentar-me no banco de madeira e ver paisagens correndo, sumindo, sem necessariamente pensar em minha própria vida, necessariamente desligando minha mente de meus afazeres diários, transcendê-la naquele mar irreal e primitivo feito de traços e línguas que que nos fazem humanos partes dalgo universalmente complexo; passo a pensar não na minha vida, mas na vida como o sentido amplo; não na minha existência, mísera poeira na constante galáctica, mas na existência em seu sentido amplo, na coisa, na força, na respiração atômica que permite o universo, o sol, a Terra, as cidades e este trem de serem algo além de nada.

O cheiro de madeira e ferro, de repente, mistura-se ao cheiro de grama, o aroma da fumaça há tempos perdido.Ainda atravessamos as planícies, e lembro-me do temporal que houvera noite passada, dos relâmpagos e trovões, e dos vizinhos continuamente confundindo um pelo outro. Lembro-me, sem motivo, do cheiro de água no cimento, lembro-me de me sentir intoxicada daquilo, de um jeito ruim; antigamente, havia a terra molhada e o aroma inebriante, longe da acidez das ruas pavimentadas. Devia ser algo próximo dos campos por qual passamos, talvez um pouco mais silvestre, não que eu soubesse o exato aroma de terra e grama molhada; fico confusa quanto a isso, pois terra e grama deviam ter sido as primeiras coisas que humanos viram no lento desenvolvimento do que chamam de inteligência, e é no mínimo impolido termos deixado de saber esses aspectos básicos quanto a elas.
Subitamente, imagens de orvalho e florestas boreais surgem na cabeça, e após uns segundos dou-me conta de que o espaço encheu-se daquele cheiro imaginário, terra, grama, orvalho, flores, lama, o que deveríamos sentir caso fossemos ao último vagão e pulássemos dele em direção aos campos recém regados pelo tempo.
Ninguém parecia notar alguma mudança nos ares, nem de maneira sutil; penso a naturalidade daquilo acontecer, na impossibilidade de não acontecer, julgando, brevemente, a maioria das janelas abertas ou entreabertas. Contudo, não há mais cheiro da madeira do qual os bancos são feitos ou dos forros azul noite do qual as paredes do vagão são cobertas, e numa epífane, imagino me levantando e indo para o senhor de terno segurando uma taça de vinho e tomando-lhe-a de suas mãos e tentando cheirar qualquer coisa que não seja a primavera, só para provar a mim mesma que o mundo era aquilo e nada mais. Detenho-me, porém, no banco. O banco a minha frente permanece vazio, e levo a atenção a ele, ignorando o fato de me sentir quase que completamente nos campos da primavera. Em veranicos campos primaveris.
O vagão não está cheio, a maioria dos lugares estão vazios e os que não estão comportamento uns sujeitos bem vestidos, estão com malas ou bolsas de couro. Há uns minutos, vez ou outra, a moça de cabelo penteado e uniforme aparece para encher a taça de vinho do senhor e oferecer nozes e balas de café para os outros. Ela aparece novamente, dessa vez sem a garrafa, num sorriso gentil oferece para o sujeito  as nozes e a balas também. Um movimento não calculado  com o cotovelo, e a taça desliza pela mesinha portátil e estilhaça no chão. As tábuas de madeira parecem agora mais brilhantes com aqueles fragmentos. Imagino se conseguiria ver meu reflexo nos pedacinhos de vidro, se ele estaria estilhaçado em milhares de partes, ou se ele seria completo em todas as milhares de partes.
Os cacos estão longe, a moça e o sujeito estão longe, só posso vagar pelo chão que cintila e pelo banco vazio a frente. Volto, em instinto, para a janela, donde os campos continuavam a marchar. Assim, de repente, sem razão, um vento sopra meu rosto, o meu chapéu agora voando da cabeça. Olho-o sendo levado pelo vento, rodando, girando, dançando pela interminável rajada, que não deixava de ser suave. Aindo sinto o vento no rosto, balançando minhas vestes, meu cabelo, o vento não irritante, tampouco. Como se estivesse andando a cavalo ou voando; no instante do êxtase libertário da entrega a essas sensações.
O chapéu continua, vaga, voa, dança, desliza pelo teto revestido, o vento balanceia minhas vestes, somente as minhas e não posso fazer nada além de permanecer de pé com a boca entreaberta sentindo-o roçar por todo o corpo. E de repente, foi-se então ao chão o chapéu, caindo numa linha sinuosa. Morto e sem brilho jazia agora no chão amadeirado tendo somente a mim como terna espectadora. os outros permaneciam em seus amendoins, em seus relógios, em conversas jogadas fora ou jogando conversa fora. Todas as vestes de todos os passageiros absolutamente no lugar.
Retire-me de meu estado absorto e passei a caminhar em direção ao chapéu. Caminho, caminho, caminho, atravessando o vagão, a maioria dos ocupantes ficando para trás, entretidos com os fragmentos da taça e os pedidos de desculpas. Andava até o chapéu, aproximando-me dele no instante em que o cheiro de terra molhada, grama e flores silvestres fez-se perigosamente presente. Caminho e a cada passo sinto-me transpondo um jardim idealizado.
Paro.
O vento amaina. Escuto a brisa. Ouço-a percorrendo folhagens, ouço-a deslizante por entre frestas de rochas, água caindo e batendo contra rochas, o canto dos pássaros que se escondiam nas árvores que eu sentia. O trem continuava percorrendo seu caminho, cortando pastagens umedecidas pelo temporal de antes. Em breve, chegaríamos à metrópole onde as nuvens negras ao alcance da visão proporcionariam mais tempestades. E parada lá, no meio do vagão, os passageiros e serviçal absortos como que há milhas de distância, via apenas o chapéu caído, esquecido senão por mim, presa na sensação de ter o universo a minha volta.
Nunca temos a real necessidade de sentir-nos na presença do universo, só naqueles momentos de decadência da consciência, quando ela nos escapa por entre dedos como areia e percebemos a futilidade de tudo, a grandiosidade de todo o resto, a luz que tudo envolve, a sombra que tudo abraça, o todo de realização meramente esquecida no primeiro instante em que a consciência retorna em sua totalidade ignorante. Vi vários chapéus ao longo da vida, mas nenhum deles tinham a resposta que sempre procurava ao olhar pela janela daquele trem. o caminho que meus tentavam enxergar dia após dia escondido nas pastagens pelas quais o trem cortava.
Parada, passo a elevar os olhos e no instante em que permito-me abranger o tudo a minha volta, tenho o primeiro conhecimento de que todas as janelas estão abertas completamente, de que todas as cortinas estão puxadas e do trem era perfeitamente possível enxergar o todo por qual cortava o trem. Vejo as mesmas pastagens, vejo o mesmo céu, as mesmas nuvens, os mesmo fios elétricos quase invisíveis de tão distantes. Ao mesmo tempo que a visão respirava o mesmo que via antes pela janela, tinha nela um descompasso esmagador. Pelas janelas abertas, via o céu violeta, em diversos tons violeta entrelaçados como que de maneira proposital; havia algo de noturno, o sentimento de abrandamento e fim, porém o céu e o que havia abaixo dele tinha ainda luminescência, mesmo que mais soturnamente. E por mais que o trem mantinha-se correndo, o céu permanecia violeta, no meio dele, um buraco nas nuvens tornando-se mais visível com o passar dos segundos, um buraco escuro, azul escuro, recheado de estrelas muitíssimo luminosas e galáxias resplandecentes como só em sonho devia ser possível.
Vejo neste exato momento, pelas janelas desse trem, as formulações galáticas abrindo espaço por entre o céu violeta, este, aceitando-as num abraço cheio de afeto e vento, até que, segundos, minutos, tempos mais tarde, o céu tecido em linhas violeta agora estava quase que completamente pontilhado por galáxias, estrelas grandiosas e planetas vagando tímidos; e em frente aos meus olhos, vejo pontos brancos, pontos brancos que surgiam e adentravam pelas janelas; os flocos de neve pairavam pelo ambiente como vagalumes num jardim.
Os passageiros ainda mantinham-se entretidos na taça quebrada. Os flocos de neve ou dentes de leão pairam pela cabine, e as janelas ainda mostrando as galáxias da mancha escura que se abria no meio das nuvens, no meio do céu violeta. O cheiro de selva mais forte que nunca.
Quando o trem chegou à estação, eu estava de pé à janela. O céu então está cinzento e chuvoso novamente, como se estivesse nesse estado o tempo todo. Sem estrelas ou nada além de especial, continuava sua monotonia numa traição requintada. A funcionário penteada diz que desejava que tivéssemos tido uma boa viagem e o senhor agradeceu. Todos foram saindo e acabei indo junto deles. Prestes a descer, parei e fito, terna e profundamente, a funcionária, tendo um sorriso meigo como resposta. Levanto a cabeça e o céu ainda está cinza.
Preciso descer, mas giro meu corpo para o interior do vagão, em uma última olhada.
O chapéu do senhor não estava em lugar algum. A moça não estava em lugar algum.

Eu não estava em lugar algum.



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