Vazio

04:54


 Estou aqui nesta sala de aula, escrevendo num caderno e ouvindo sem ouvir a voz da professora, e pouco a pouco, descubro de momento a momento, que minha vida — cuja existência nunca fora nem extraordinária ou importante —, agora, desenlaça-se em vazio. Algo nem tão incomum para mim, sendo esta realidade já presente há tantos anos que talvez eu nunca tenha vivido sem essa sensação de fato; a verdade é de que enquanto as cadeiras se arrastam pelo chão, rangem misturadas aos gritos eufóricos de estudantes, a sensação sempre guardada comigo começa a tomar forma e a expulsar aquele resto que eu tão preciosamente guardara.   

 Desde manhã bem cedo estou com uma torrada no estômago, o pouco que obriguei-me a comer. Cheguei sem falar com ninguém verdadeiramente, e na última carteira refugio-me e ignoro o resto, ao mesmo tempo em que sei que para todos eles, eu sou o resto. Talvez a sensação tenha se desdobrado por completo quando observei todos os outros, os estudantes desatentos desenhando ou no celular, os estudantes anotando no caderno, aqueles que só olhavam a professora explanar, eu os via sem ser vista, vi suas expressões tranquilas, despreocupadas, e num rompante, pego-me pensando qual fora a última vez em que estive desse jeito. Pensando na matéria, em coisas tolas ou em coisas realmente importantes. Qual fora a última vez em que pensei noutra coisa além de aparentar normalidade?

 A professora bate na lousa com o giz e ele se quebra, os pedaços caem no chão.

 Estou rodeada  por muitos porém consolada por nenhum. E aqui, vejo gotas d'água caindo nesta folha, rapidamente enxugo com a manga da blusa, rasgando a folha no processo. São gotas vindas do ar condicionado acima de mim. Meu rosto está seco como sempre esteve e sempre controlarei para estar. Por que chorar quando não há motivo para chorar?

 Escrevo agora não pelo amor às palavras, tampouco pela inspiração que outrora ousei acreditar que existisse.O que impulsiona-me não são os sentimentos, mas a ausência deles. Estou corrompida por nada sentir e não preocupar-me com isso; a vaziez que agora se desdobra por todo o meu corpo é familiar e, de algum modo, irresistível. Como se eu sempre tivesse pertencido à ela.

 O sinal para o intervalo toca, mas eu não me levanto. 

 Fico aqui, sentada, olhando e pensando na folha rasgada e na minha própria existência. Acabo por pensar na inutilidade de ambas.



  

You Might Also Like

0 comentários

Top 3