Estilhaça-me # 1 | Resenha

17:39


Título (original): Shatter Me
Autora: Tahereh Mafi                            
Editora: Novo Conceito
Páginas: 304

Sinopse: Juliette não toca alguém a exatamente 264 dias. A última vez que ela o fez, que foi por acidente, foi presa por assassinato. Ninguém sabe por que o toque de Juliette é fatal. Enquanto ela não fere ninguém, ninguém realmente se importa. O mundo está ocupado demais se desmoronando para se importar com uma menina de 17 anos de idade. Doenças estão acabando com a população, a comida é difícil de encontrar, os pássaros não voam mais, e as nuvens são da cor errada. O Restabelecimento disse que seu caminho era a única maneira de consertar as coisas, então eles jogaram Juliette em uma célula. Agora muitas pessoas estão mortas, os sobreviventes estão sussurrando guerra – e o Restabelecimento mudou sua mente. Talvez Juliette é mais do que uma alma torturada de pelúcia em um corpo venenoso. Talvez ela seja exatamente o que precisamos agora. Juliette tem que fazer uma escolha: ser uma arma. Ou ser uma guerreira.


Não estava exatamente ansiosa ou com muita vontade para ler este livro; na verdade, o ponto atrativo que me levou a lê-lo foi o fator “super-poderes” da protagonista e da pegada “X-men” que ouvia muita gente comentar sobre. Ignorei as críticas negativas e fui me aventurar na obra.
Na história, conhecemos Juliette. A bela e boa Juliette tem um dom: seu toque é letal. Odiada pela família e por todos, elas foi enclausurada numa espécie de prisão/sanatório e passa seus dias trancada numa solitária, mal alimentada e mal vestida. Ao mesmo tempo, lá fora, o mundo entra em caos. Há falta de alimentos e mudanças climáticas; nisso, o Restabelecimento passa a ter controle sobre os setores, as novas divisões geográficas por qual o mundo passou, e essa “entidade” política tenta solucionar o caos com violência coercitiva, prisões, guerras contra rebeldes e controle de liberdades individuais. Basicamente, o Restabelecimento é o governo que tem a solução para o bem estar social e que precisa ser derrotado pelos rebeldes. É nessa realidade que Juliette vive enquanto está encarcerada. Porém, tudo muda quando — adivinhem! — um rapaz bonito aparece em sua cela como companheiro de cárcere, chamado Adam. Com problemas de relacionamento à primeira vista, a ligação entre ambos se fortifica e acabam libertos; mas Juliette passa a ser a partir de agora, prisioneira de gala dos militares, que querem usar seus poderes em benefício do Restabelecimento.
A premissa de uma Distopia Ambiental é intrigante. Claro, não esperaremos a complexidade de clássicos distópicos num livro juvenil, mas após o conteúdo de Jogos Vorazes (que consegue agradar jovens e adultos em sua crítica ao consumismo em todos os sentidos e à mídia sensacionalista e ao governo para elites) era um caminho esperado que a premissa se desenrolaria na proposta apresentada na própria sinopse. O mundo morrendo, o Restabelecimento construindo a ilusão de uma solução, os dons misteriosos de Juliette que a tornam um monstro para a sociedade, etc. E etc. E etc. Entretanto, a autora decidiu embrenhar pelo caminho mais simples de se contar uma história para jovens hoje em dia: fazendo a menina e o rapaz perfeito se apaixonarem e terem milhares de cenas e diálogos melosos um com o outro. E é isso. Depois das intriguinhas que Juliette e Adam nos primeiros capítulos, a coisa se transforma num romance, no sentido romântico do termo mesmo.  

Ele está errado ele está muito errado ele está mais errado que um arco íris de cabeça para baixo.Mas tudo que ele disse está certo.
  E aí que entramos num problema e percebi no momento em que lia que a “distopia” seguiria o que o livro A Seleção também seguiu. Colocar a distopia como um pretexto para se ter um cenário diferenciado e focar no relacionamento romântico da protagonista com o rapaz perfeito. Mas a premissa básica de A Seleção já nos deixa saber que esse será o caminho, que é um romance romântico temperado com uma distopia, ou seja, é honesto. E Estilhaça-me? O cenário político é desperdiçado. Os problemas do mundo — que podem facilmente vir a ser realidade se é que já não o são num grau menor — são desperdiçados. Tudo porque precisamos ouvir o quanto Adam é bonito, o quanto é isso, o quanto é aquilo…
E basta lembrar que praticamente todos os personagens masculinos estão apaixonados por ela, o que faz com que vários diálogos entre eles e ela sejam flertes ou propostas amorosas. E vale dizer que ela é a única personagem feminina da obra, ou pelo menos, em 95% dela, se contar as aparições de mulheres figurantes lá no finalzinho. Temos uma protagonista bonita (apesar dos anos passando fome), poderosa e desejada até pelo vilão, Warren, o líder dos militares naquele setor.
Nenhum dos personagens parece ter carisma. Juliette é a típica mocinha que se culpa por tudo, mas que é boa e linda, Adam a ama e também é lindo e bom, e tem um passado sofrido. É tudo adocicado e emotivo. E não há sentido dela ser considerado um monstro. Na história, ela infligiu medo e ódio na população no passado e imprime terror nos militares, mesmo sendo a prisioneira de honra deles. O problema é que ela não parece uma personagem a ser temida. Parece injustificável. Ela é o arquétipo de uma menina que se culpa e que chora pelos cantos todas as vezes que está longe do namorado, a única coisa boa para ela. Juliette não parece temível para o leitor e há pouca demonstração de seus dons. E Adam? Imagine qualquer mocinho de um romance juvenil “para meninas” e coloque um uniforme militar nele. Acrescente um passado triste. Pronto.
Quando a protagonista e o par romântico são rasos de personalidade, é esperado que o vilão contrabalanceie isso e seja interessante. Mas aqui isso não acontece. Na verdade, Warren está decidido a ser um dos piores vilões que eu já li. As discussões que ele tem com Juliette são extremamente infantis, parecessem que os dois não passam de crianças teimosas. E em todas as vezes, ela se mostra mais uma pessoa estúpida do que necessariamente corajosa.

Você sabe, sou bastante capaz de matar pessoas por conta própria, Julliete. Na verdade, sou muito bom nisso.

A linguagem da autora pode amadurecer mais, apesar de eu não sentir que seu jeito de escrever fosse um problema grave na obra. Diria que as metáforas e comparações ficaram esquisitas; elas refletiriam o modo de formar imagens mentais de alguém que passara anos sem ver ou falar com outro ser humano, mas acabou que várias das comparações e metáforas ficaram mais engraçadas que poéticas. E tudo é prejudicado pelos diálogos fracos ao longo do livro.  
 A obra dá uma guinada para o final e é aí que o fator X-men entra, mas sem tempo suficiente para valer a leitura, o que faz com que os novos personagens sejam figurantes jogados e rasos; acaba sendo um prelúdio para o segundo livro.     
 Acaba que Estilhaça-me é uma história de amor que mal tenta ser uma distopia e cuja moral é o óbvio “temos que cuidar bem do planeta, não desperdice, proteja as árvores” que vira discursos panfletários numa narrativa que não dá atenção de verdade para o caos do planeta. Fica a lição de você abraçar a sua história pelo que ela é, e não tentar empurrá-la para um subgênero só porque está “na moda”.




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