Dexter, a Mão Esquerda de Deus | Resenha

21 janeiro 2017
Título (original): Dark Dreaming Dexter
Autor: Jeff Lindsay
Editora: Planeta do Brasil  
Páginas: 272


Sinopse: Dexter Morgan é um educado lobo vestido em pele de ovelha. Ele é atraente e charmoso, mas algo em seu passado fez com que se transformasse numa pessoa diferente. Dexter é um serial killer. Na verdade, é um assassino incomum que extermina apenas aqueles que merecem. Ao mesmo tempo, trabalha como perito da polícia de Miami.


Acho que desde que me interessei pelos quadrinhos do Batman, fiquei curiosa em ler e assistir mais sobre psicopatia e serial killers, então, inevitavelmente, após Psicose, American Psycho e a série Hannibal, acabei nas garras de Dexter, o expert em manchas de sangue mais espertinho de Miami. Os livros, para quem ainda não sabe, foram “adaptados” para a série de tv homônima, mas eu só havia visto o piloto antes do livro, então minha visão da obra ficou mais pura.
Muito bem, do que fala essa história? A premissa é extremamente simples. Dexter Morgan trabalha para o Departamento de Polícia de Miami-Dade. Atraente, simpático e amável, ninguém desconfia de seu maior segredo: Ele é um assassino de assassinos. Faz anos que Dexter vive essa vida dupla e nem mesmo Deborah, sua irmã adotiva agente de polícia desconfia de alguma coisa. Um fato é certo: Dexter é um perfeito ator.
Porém, sua vidinha (podemos chamar de vidinha?) é abalada quando um novo serial killer  aparece na cidade, assassinando prostitutas e embalando os pedaços dos corpos em embrulhos de presente, tudo isso sem deixar uma gota sequer de sangue. Dexter, como o assassino asseado que é, fica impressionado com a limpeza do ato, que logo se desenvolve num fascínio mórbido pelo matador misterioso que aumenta a cada nova vítima. Enquanto ajuda sua irmã Deborah a pegar o matador para finalmente ela conseguir uma promoção, Dexter flerta com a possibilidade de pegar ou não o assassino.
As coisas já estariam complicadas o suficiente se Dexter não começasse a apresentar sonhos sinistros, sonhos esses que, por alguma razão, são mais reais do que deveriam. Afinal, chegou a hora de nosso querido psicopata enlouquecer?
A verdade é que o autor se preocupa muito mais em nos deixar curiosos e empáticos com Dexter e seus pensamentos irônicos e sinistros do que em desenvolver um enredo mais interessante ou necessariamente coeso com o gênero policial. O autor não investiu nas investigações, simples assim. E apesar de existirem vários romances policiais cujas narrativas são truncadas devidas a elas, Dexter querendo ou não tem um enredo teoricamente centrado na captura de um assassino serial, mas as pistas, investigações, os interrogatórios, todo o processo é deixado de lado para o autor focar em como Dexter é esperto e acha todos os policiais e detetives idiotas. Por um lado, como o livro tem uma veia cômica muito forte, percebe-se que foi por ela que o autor resolveu seguir com a história, mas por outro, somente ela não segura uma narrativa investigativa fraca.
Em se tratando de personagens, não tem jeito, Dexter fica com todas as qualidades de um bom personagem. Há a óbvia dubiedade — ele trabalha para a polícia durante o dia e mata assassinos durante a noite —, acrescida da vestimenta social que ele coloca; charmoso, gentil, simpático e sorridente, Dexter consegue criar uma persona social que ninguém (ou quase ninguém) desconfia. Ele se obriga a tentar entender emoções para, justamente, poder falseá-las para terceiros em atuações excelentes de um homem normal e boa pinta.
É interessante que na teoria, o autor escolheu criar um psicopata de verdade, ou seja, alguém incapaz de ter emoções ou sentimentos, algo que autores, leitores e espectadores ainda confundem. Dexter não é louco como o assassino de Psicose (que nem é um psicopata) ou totalmente desprezível e vil como o protagonista de Psicopata Americano; o autor consegue dar a ele um carisma extremo, ao mesmo tempo sem que esqueçamos que se trata de um homicida no mais verdadeiro sentido da palavra. Dexter não é um herói, tampouco um justiceiro. Ele não liga para as vidas que salva ou se vinga enquanto mata assassinos (a não ser que sejam crianças), pois ele simplesmente precisa matar e gosta disso, e o fato de suas vítimas serem assassinos é apenas uma desculpa de tornar o processo mais “aceitável” (entre muitas aspas), segundo o que seu pai lhe ensinara.
Débora, a irmã adotiva de Dexter, trabalha na polícia e sonha em ser promovida para o Departamento de Homicídios. Ela reclama de tudo, xinga, e nunca é levada a sério no trabalho; ela ama o irmão e é a única pessoa por quem Dexter “sentiria alguma coisa” se pudesse. E claro, como todo mundo, ela nem desconfia a real natureza dele. A relação dos dois é bem interessante de se acompanhar, e promove algumas risadas, principalmente pelos comentários que Dexter pensa e pelo que ele realmente chega a dizer. É claro, nem tudo são flores, pois Deborah, em vários momentos, depende demais de Dexter nas investigações, mesmo que esse trabalho, em teoria, pertence a ela e aos outros oficiais, não a Dexter (especialista em manchas de sangue). Há alguma profundidade em ela ter pavio curto e ter mil reclamações, e ao mesmo tempo ser insegura em se pôr diante de outras pessoas, principalmente de autoridades, mostrando não ser a típica durona. O ponto é que chega a ser desconfortável como ela é tratada; ela se disfarça de prostituta por causa do trabalho e é chacota por conta disso e é dependente da inteligência do irmão. É complicado não ignorar o sexismo, ainda por cima levando em conta os acontecimentos finais do livro.
Os outros personagens não recebem muito destaque; são basicamente os sujeitos que Dexter considera idiotas por não verem o óbvio. Engraçado é que no começo ele nos apresenta Rita, sua namorada que escolheu para melhorar ainda mais sua persona social e se encaixar, e ao invés de seguir o caminho esperado, Dexter se mostra com características assexuais. Espero que isso perdure nos livros por mais tempo, pois não há muitos personagens assim por aí e isso dá passagens sensacionais ao longo da história.
Não senti nenhuma romantização da psicopatia, ou ao menos, nada muito grave, mas estou apreensiva quanto a isso nos próximos livros, pois já tenho uma ideia do livro 2 e não estou muito ansiosa por ver o que pode rolar. Porém, ainda recomendo o primeiro livro Dexter com prazer. A narrativa flui facilmente, e é fácil rir ou pelo menos sorrir em várias passagens. A mente de Dexter é amoralmente brilhante. Apesar de a série ser conhecida por ter tomado caminhos ruins, a primeira obra original ainda vale a pena a ser lida como passatempo inofensivo (que ironia).



Alana Campanha
Há milênios perdida nesta Terra, sobrevive de histórias feitas por seus habitantes. Ama escrever, criar tramas surreais e se aventurar pela literatura. Apaixonada por Doctor Who, sonha em viajar por esse mundo um dia desses.
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