Apenas mais um dia

13:58

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"Oi, tia Neide. O Neto ta aí?"

"Claro, meu fio… Senta aí, que já vou chamar."

Sentei no sofá e meus dedos cavoucaram sua espuma à mostra no assento ao lado.

Essa casa ainda me parece tão familiar… Há anos não venho aqui.

"Tecnicamente" sussurrei e imediatamente olhei em volta para ver se alguém me ouvira. Não, tudo certo.

Dos blocos à vista da parede da sala uma pintura gasta e barata dava um tom azulado na casa toda; uma cor de lar. A tevê velha de tubo gritava as notícias sensacionalistas de sempre. Estupro, morte. Mais do mesmo, para variar.

"E aê, irmão!" Neto me cumprimentou com nosso velho toque de mãos. Respondi o cumprimento mecanicamente. As lágrimas vieram aos meus olhos eu agradeci mentalmente aos óculos de escuro que eu estava usando.

"Rayban da hora." ele pontuou.

"Valeu, mano."

Silêncio.

Ele estava tenso e eu sabia o porquê. Eu estava tenso e ele nem imaginava o motivo. Ah, se ele soubesse!

"Sobre o assalto" sua mão tapou minha boca rapidamente. Apenas um olhar e as mensagens Minha mãe ta aí, Ela não sabe e Vamo dá um role pra conversar foram passadas.

Levantei.

Sentia-me velho. No quintal de chão batido algumas partículas de poeira levantavam-se enquanto caminhávamos para fora. Retirei o pedaço de caibro que mantinha o portão carcomido de ferrugem fechado e o segurei enquanto o Neto passava. Em seguida, escorei o portão, pensando em como falaria o que tinha que dizer. Ele me esperava do outro lado da rua, mãos nos bolsos de sua bermuda. Um breve olhar para ele foi o suficiente para me lembrar porque eu o admirava tanto. Ele tinha aquela… coisa. Sei lá, um espírito de liderança que fazia a gente ter vontade de segui-lo.

Tem; me corrigi. Ele tem um espírito de liderança que faz a gente ter vontade de segui-lo.

"Mano, preciso falar sério com você."

Ele só assentiu de forma significativa. Olhou-me com toda a seriedade que o assunto que eu iria abordar pedia. Como senti falta disso!

"O assalto." E pronto. Com essas palavras dele memórias escorreram por minha mente e se tornaram uma realidade quase palpável. Não havia rodeio. Não entre nós.

Todo o discurso que eu construíra e ensaiara para convencê-lo sumiu da minha mente. Em seu lugar, palavras desesperadas escaparam pelos meus lábios:

"Vai não, cara. Vai, não."

E quase chorei.

Neto pontuou com toda sua autoridade nata os pontos positivos e negativos de seus planos; as coisas boas em detrimento das ruins. Ele falou da tia Neide, da Tuti, a irmã dele. Todas as coisas que ele sempre quis dar para elas e que não podia. Escola não dá dinheiro, disse. Bolsa-família? Não dá nem para a despesa de um mês. Lembrou do pai falecido. Da pobreza. Da necessidade.

E enquanto ele falava, eu quase concordei. Eu estava lá quando eles passaram fome, quando as coisas realmente ficaram difíceis. Eu vi e vivi aquilo tudo ao seu lado. Mas eu sabia.

"Você vai morrer." decretei.

"É um risco." e deu de ombros.

"Não, você vai morrer. Eu sei."

"Olha…" ele começou. Seus olhos foram para longe, longe. Era como se ele também soubesse de algo que eu não sabia.

Mas não falou nada.

Um tapinha caloroso em minhas costas e eu sabia que o assunto estava encerrado; que não havia nada que eu pudesse dizer o faria mudar de ideia.

A conversa se encaminhou para temas amenos até que não tínhamos mais nada para falar. Entramos. Vimos tevê. Ele disse que tinha que ir e eu murmurei um eu te amo. Ele fez troça do que eu disse. E foi.

O resto da história eu não precisava ficar ali para saber. Eu já sabia.

Escondi-me um beco, perto de uma casa abandonada. Apertei os botões certos do óculos e voltei para o futuro.

Em poucas horas o eu do passado receberia a notícia. 



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