Precisamos falar sobre o Kevin | Resenha

10:58



Título (original): We need to talk about Kevin
Autora: Lionel Shriver
Páginas: 464
Editora: Intrínseca.

Sinopse: Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos.
 Transposto o primeiro estágio da perplexidade, um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia, até então uma bem-sucedida autora de guias de viagem.
 Cada interstício do histórico familiar é flagrado: o casal se apaixona; ele quer filhos, ela não. Kevin é um menino entediado e cruel empenhado em aterrorizar babás e vizinhos. Eva tenta cumprir mecanicamente os ritos maternos, até que nasce uma filha realmente querida. A essa altura, as relações familiares já estão viciadas. Contudo, é à mãe que resta a tarefa de visitar o "sociopata inatingível" que ela gerou, numa casa de correção para menores. Orgulhoso da fama de bandido notório, ele não a recebe bem de início, mas ela insiste nos encontros quinzenais. Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável.





 Eva tem uma vida que muitos gostariam de ter, com direito a uma empresa própria e viagens ao redor do mundo. Mergulhada em liberdade e multiculturas, ela de repente perde aquela “paixão” inicial por essas aventuras, e mesmo após se apaixonar e casar com o marido que ainda ama, ela sente um vazio por dentro. Kevin então nasce como uma promessa de reascender em Eva a verdadeira felicidade de existir. Porém, anos mais tarde, Kevin acaba nos noticiários por fazer um massacre em sua escola, totalmente planejado. Julgado e preso, é Eva quem tem de lidar com as consequências de ter um filho assassino. Logo após a condenação do filho, ela também é julgada, pois acredita-se que a culpa de Kevin ter uma personalidade desajustada pertence, em grande parte, a sua mãe.
 Sozinha, condenada pela opinião pública e afundada em dívidas, ela se divide em sobreviver dia após dia, visitante o filho na prisão e aliviando sua mente caótica numa correspondência com o marido. É nessa correspondência íntima e honesta que vemos o desenlace de uma mãe que tenta desdobrar os motivos obscuros da anormalidade de Kevin.
 No começo, fiquei com um pé atrás pela escolha de se contar a história por cartas, pois sempre fico com a sensação de que as cartas fictícias se parecem muito mais com narrativas cheias de detalhes — que poderiam muito bem não serem cartas — do que cartas propriamente ditas. Mas a narração epistemológica da obra consegue passar a intimidade de uma correspondência extremamente pessoal, mais as lembranças guardadas de uma mulher que decidiu contar o seu lado da história, com rancores e confissões. O livro é permeado de lembranças de Eva, desde a decisão de ter um filho até o último dia antes do massacre. Cheia de digressões, a obra apresenta frases longas e sintaticamente complexas, como que para refletir os mais profundos pensamentos da narradora, imersos em angústia.
 A vida de Kevin e sua relação com a mãe nos é contada por ela de forma não-linear. E mesmo nós leitores já sabendo da tragédia que se anuncia, o suspense ainda é do mais alto grau, construído em momentos certeiros, em pistas espalhadas pelo cotidiano de Eva tentando decifrar os comportamentos peculiares do filho, ignorados pelo pai, cego de devoção a Kevin. Quanto mais vemos Kevin crescer, e mais o prenúncio de uma tragédia se mostra às claras, mais nos sentimos ansiosos por saber como os fatos realmente se desenrolaram, o como e porquê aconteceu. E ficamos chocados quando o descobrimos, choque principalmente desencadeado pelo brilhantismo de um clima de suspense perfeitamente bem construído.
 Os personagens são realistas, e como percebemos como elas são por dentro, um amontoado de falhas e qualidades, tudo observado e deduzido por Eva em suas digressões, não há praticamente personagens com muito carisma. A autora não os fez para que nós nos apaixonássemos por eles, os fez para serem mostrados. Eva pode ser amarga, perfeccionista, aventureira, e sentir-se culpada pelo filho. Distante de Kevin, sempre soube que algo estava errado com o garoto, e ficava na polêmica linha de amá-lo ou não amá-lo. Seu marido, esperançoso, positivo e paternal ao extremo, é o oposto direto de Eva, frequentemente fechando os olhos para os comportamentos esquisitos do filho. Kevin põe os pais no jogo ao seu favor, com maldade pura e artimanha, num verdadeiro teatro de filho perfeito que só sua mãe consegue enxergar.
 Mas o livro acaba falando mais do que a genealogia de um assassino. A obrigatoriedade da gravidez é discutida em algumas passagens por Eva, que sente obrigada a desejar filhos, mesmo tendo uma vida que sempre sonhou. Daí, o controle social e familiar sobre a gravidez toma conta, e a mãe se transforma num simples recipiente que leva uma nova vida. Sua importância no mundo se limita a ser esse recipiente. Eva recebe ordens dos médicos, do marido, das amigas, tudo em prol do que todos acham que uma gravidez saudável deva ser. E isso também mostra o machismo dar as caras num nível que poucas pessoas comentam: o marido não concordar que a gravida tenha uma vida que não se relacione minimamente com o bebê. Eva é praticamente proibida de dançar por ele, em pleno século XXI.  
“[...], cruzada a soleira da maternidade, de repente você se transforma em propriedade social, no equivalente animado a um parque público. Aquela frase “você agora está comendo por dois, querida”, nada mais é que uma forma de provocação, porque nem mais o jantar é assunto privado seu. ”
Há também a discussão sobre a mãe precisar se dar por inteiro ao filho, amá-lo incondicionalmente e esquecer da própria vida para cuidar dele, enquanto o pai só dá um “auxílio”. Essa cultura infelizmente é muito presente, inflando o pensamento de que só somos mulheres “de verdade” quando esquecemos carreira e vida social para nos entregarmos à maternidade, obviamente enquanto solidamente casadas.
 Lionel Shriver consegue nos apresentar um drama permeado de suspense e as mais variadas reflexões, seja a respeito da maldade inexplicável, seja a respeito das verdades sombrias sobre a maternidade e família que as pessoas ignoram. Em face de tantas tragédias orquestradas em escolas na América do Norte, “Precisamos falar sobre o Kevin” é bem mais real do que deveria ser.    



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2 comentários

  1. Olá, Alana tudo bem?
    Eu só vi o filme "Precisamos fazer sobre o Kevin", a Tilda que faz a Eva, está maravilhosa, eu adoro a atuação dela. Eu acho o livro como o filme, fica aquela duvida no final, que pessoas ruins, nascem ruins ou se tornam ruins, eu acredito que elas se tornam ruins com a suas experiencias de vida, Kevin tinha tudo para ser uma vida ótima, apesar das dificuldades que os pais passaram no começo, se foi amor, se foi o desprezo, se a mãe, se foi o pai, se foi uma conversa com alguém estranho, se foi outras outras coisas que nem nos damos conta, podem der todos esses fatores pode ser nenhum, que podem ter levado a Kavin fazer aquele assassinato macabro, mais sempre no final vai ter uma mãe que vai ficar a vida toda pensando onde ela errou, mesmo que digam que não foi culpa dela, ela nunca vai tirar isso da cabeça, essa ligação de mãe e filho, que nós filhos muitas vezes ignoramos, sempre vai existir. E a dor e o sofrimento, sempre vão existir cada vez que ela olha para o filho.

    Eu adorei o filme, a mente humana sempre fazendo a gente se surpreender para coisas ruins, e felizmente para coisas boas :)

    Bjokas!

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    1. Oi, Duda! É verdade, tanto o livro quanto o filme especulam sobre como o Mal surge, mas não dão respostas de fato, pois a humanidade nem as encontrou ainda. Há um conto (que virou filme) do Stephen King que também fala sobre a questão do Mal, chamado "O aluno inteligente" que recomendo. Eu também gostei muito do filme, Eva e Kevin foram excelentes, e sempre gosto quando as adaptações de livros ficam sem as narrações em off, se utilizando só de imagens para contar a história.É uma Arte diferente, afinal de contas.

      Beijoos e até :)

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