Guerra Civil [Romance] | Resenha

19 julho 2016


 Título (original): Civil War
 Autor: Stuart Moore
 Editora: Novo Século
 Páginas: 391


Sinopse: A épica história que provoca a separação do Universo Marvel! Homem de Ferro e Capitão América: dois membros essenciais para os Vingadores, a maior equipe de super-heróis do mundo. Quando uma trágica batalha deixa um buraco na cidade de Stamford, matando centenas de pessoas, o governo americano exige que todos os super-heróis revelem sua identidade e registrem seus poderes. Para Tony Stark o Homem de Ferro é um passo lamentável, porém necessário, o que o leva a apoiar a lei. Para o Capitão América, é uma intolerável agressão à liberdade cívica. Assim começa a Guerra Civil. 


“Eu acho que esse plano irá nos dividir. Eu acho que você irá ter uma guerra entre nós”.



Esses dias fui a uma livraria e vi vários romances da Marvel, livros de verdade sobre heróis. Fiquei pensando se a Casa das Ideias estava apostando em criar uma nova onda literária, e se solidificar nesse ramo, o que poderia ser bom. Havia histórias inéditas, feitas especialmente para serem livros, e duas histórias adaptadas direto dos quadrinhos. Um deles foi “Guerra Civil”, o segundo romance dessa leva, totalmente adaptado da HQ. Inclusive, foi o lançamento desse livro que me fez ler o quadrinho de uma vez, pois eu sempre deixava a leitura para depois. Quando terminei a hq, já iniciei depois de alguns dias a leitura do livro.
 Vendo os lançamentos da Marvel nas livrarias, penso que o melhor para ela é se aprofundar nos lançamentos inéditos, e não em adaptar histórias que já existem nos quadrinhos. Pode parecer esquisito pensar assim, mas depois de Guerra Civil, não me vejo acompanhando outro “copiar e colar” desse tipo.
 Por quê?
 Todo mundo já sabe mais ou menos do que se trata. Eu pessoalmente, gosto demais do plot geral. Depois que heróis novatos acidentalmente destruírem quase uma cidade inteira, matando milhares de pessoas, o que leva o governo a tentar de uma vez por todas criar leis para limitar a liberdade de ação dos heróis. Há a criação da Lei do Registro, no qual todos os heróis e vigilantes precisam revelar suas identidades ao governo, e serem avaliados e treinados por ele, se necessário, para poderem ter o aval para exercer suas atividades. Tony Stark concorda com as decisões, e apoia o Registro. Steve Rogers, o Capitão América, interpreta a lei como uma falta contra a liberdade dos super-heróis, e se põe contra ela. Assustada, a sociedade vota a favor da lei, e todos aqueles que a quebram são legalmente criminosos.
 Tudo pronto para uma boa briga de ideologias e socos, e ela segue bem nos quadrinhos. Agora, vamos focar no livro. Imaginava todas as pegadas possíveis para se contar a história, menos a mais fácil: escrever tudo que já estava escrito ou mostrado no quadrinho. O primeiro capítulo é uma verdadeira cola de todos os diálogos da hq, entremeadas com a descrição de ações que os personagens fazem nos quadros. Pare quem já leu, é um pouco entediante, e para quem não leu, não tem nada demais. 
 Quando o capítulo do Homem de Ferro começa, realmente me interessei pela leitura, e continuei. O enredo em si é  bem interessante, sem deixar de ser coeso, apesar de conter vários momentos de ação, que tomaram um espaço que poderia ser preenchido por debates de verdade. Porém, estamos falando de uma obra advinda de hq de super-heróis, então não ligo para lutas, que foram desenhadas maravilhosamente bem em quadros icônicos nos quadrinhos, e até aprendi a apreciá-las. E mesmo assim, a carga política é uma veia muito forte dentro da história, em outras palavras, não é só mais uma história de super seres. Assim, o roteiro original já era muito bom, então eu já esperava que pelo menos o enredo seguisse a qualidade. E seguiu, o que era esperado, já que o roteiro para o romance estava praticamente pronto. 


 “Steve franziu a testa, depois voltou sua atenção para a bandeira desenhada à mão. A parte superior era um bloco azul. Guardou o giz vermelho e pegou o branco, brincando com ele entre os dedos.
 No dia seguinte, começaria as estrelas. ” 


 Após alguns capítulos, comecei a pensar na mecânica das adaptações. Quando um livro vira filme, é necessário ter mudanças para a obra se encaixar melhor no novo formato. Um quadrinho virando livro deveria ter um tratamento similar, modelando os trabalhos originais para o formato literário mais adequado. Mas lendo Guerra Civil, eu não vi nenhum motivo para aquilo ter sido transformado em livro, além do lucro. Todas as cenas que eu já havia visto estão lá, descritas com pobreza, o que prejudica até quem não leu. E certamente quem não leu também não vai conseguir visualizar mais da metade dos personagens, que o autor não se dá ao trabalho de descrevê-los e nos apresentá-los adequadamente. No fundo, a Marvel sabe que existem muito mais leitores de livros que de quadrinhos, então imagino que ela estava preparada para lançar um livro que seria lido por várias pessoas que não passaram os olhos pela hq. E, mesmo assim, eu não senti apelo pela história escrita, e nem tampouco sentiria se eu não tivesse lido a obra original.
 Alguns pontos que são normais nos quadrinhos, são estranhos na literatura. Poucos diálogos por cena e falta de emoções mais profundas dos personagens. O Capitão América está sendo caçado por causa de uma lei que tenta evitar outras tragédias, mas não sabemos exatamente como ele se sente, que emoções conflitantes se passam por sua cabeça. Só linhas muito gerais. O Homem de Ferro é mais trabalhado, mas os diálogos internos também não são profundos. Mesma coisa com o Homem-Aranha, e com a Sue do Quarteto Fantástico. Vemos os capítulos de cada um deles passando, uma cópia exata dos volumes da hq sem nenhum desenvolvimento psicológico mais corajoso dos personagens. Nada. E vamos lembrar que o diálogo interno é  um dos principais pontos da literatura, e, novamente, não bem trabalhado pelo autor.
  A escrita é simples, não tem nada demais. Ao mesmo tempo em que é puramente visual, as descrições dos cenários e personagens são fracas, e isso faz falta principalmente numa obra com o pé na ficção-científica com tantos personagens. Somos apresentados a cenários muito gerais e a personagens de aparências também muito gerais.   
 Guerra Civil também é uma história emocional, e imaginava que essa carga ficaria maravilhosamente escrita como literatura, os pontos sombrios e inquietantes de Stark e Rogers, a indecisão moral de Peter, a incerteza de Sue, a autoridade quase tirânica de Hill e uma SHIELD com mãos de ferro que toma leis sem ver as consequências. Uma trama intrincada, tão política quanto psicológica, pois sabemos que precisamos utilizar a razão e a moral para escolher entre essas duas ideologias. Infelizmente, o livro é apenas uma versão sem desenhos ou quadros da hq, numa linguagem simples, sem nenhum esforço para fazer algo além. E a maioria das cenas não tem o mesmo impacto das dos quadrinhos. Não senti nada quando o Aranha revelou sua identidade, o que foi descrito com tanta simplicidade e falta de emoção quanto seria se o Spidey fosse descrito atravessando a rua.  
 Talvez eu esperasse demais desse livro. Talvez eu tenha ficado cega com a onda Civil War desse ano, e tenha me precipitado para ter uma excelente leitura com traços políticos, um aprofundamento a mais do que realmente vemos na hq. Talvez esperasse uma viagem pelas mentes dos personagens em meio a dias tão turbulentos quanto a uma guerra de ideias. Enfim, o livro não tem muita utilidade para quem já leu a hq, e para os novatos, recomendo a hq ao livro, mesmo para quem prefira a literatura tradicional. Há diálogos divertidos, e ótimas cenas (como o lindo momento quando Capitão pinta a bandeira dos EUA), mas a maioria já está prontinha na hq. Se for um novato e mesmo assim quiser ler, vai ficar confuso quanto aos heróis que surgem a todo o momento, mas persista, pois, o final surpreende, de um jeito melancólico.
 E por mais que tenha pendido para pontos negativos para mim, o final conserva a habilidade de nos fazer refletir. Às vezes, o que dissemos e defendemos com unhas e dentes diferem e muito de nossas ações, e nesse momento precisamos parar e reavaliar o que estamos fazendo. Guerra Civil consegue deixar uma mensagem, um levantamento de questão. E se ainda quiser se aventurar pelo livro sem ter lido nada antes da história, faça sem grandes expectativas de um romance denso, e com certeza aproveitará mais do que eu.
   
“Podemos ganhar essa! ”
    “Podemos ganhar” repetiu o Capitão “Tudo, menos a discussão. ” 



Alana Campanha
Há milênios perdida nesta Terra, sobrevive de histórias feitas por seus habitantes. Ama escrever, criar tramas surreais e se aventurar pela literatura. Apaixonada por Doctor Who, sonha em viajar por esse mundo um dia desses.
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2 comentários:

  1. Eu não leio muitos hq, mais gosto bastante do formato quadrinhos para contar estorias, eu acho que é como no jogo Assassin Creed, quem leu os livros, dizem que é um cole e copia do jogo, mesmo que eu não tenha jogado os jogos ou ter tido os hq, lido um livro, visto o filme, eu quero ter toda a imersão da media original. Claro que tem algumas coisas que são difícies de adaptar, mas tem que ser de uma forma aproximada para ter uma experiencia boa. Mas as coisas da grande mídia, é tudo comercial, e para dizer que: eu também tenho isso no meu catálogo, o que é uma pena, tenho certeza de que muitos, e inclusive eu, compraria livros desses super heróis, para saber sobre o seu intimo, seus pensamentos suas emoções, motivações, como são os livros realmente, te transportando para um outro universo.

    Eu não sei dos livros de Star Wars, como o originais são filmes, e depois fizeram jogos, livros, hq, e não sei mais o que, que foi uma expansão do universo, o que não é o caso da Marvel.

    Bjokas :)

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    1. É realmente uma pena, mas ainda estou esperançosa quanto à literatura da Marvel. Havia vários livros dela com histórias inéditas nas livrarias, e pareciam bem interessantes. Claro, tudo é comercial, mas estão se dando ao trabalho de criar histórias bacanas como livros, não só adaptando tudo. Quem sabe estão aprendendo com Star Wars? kk. Sempre preferi ler coisas novas vindas de outras mídias, não só cópias do que já vi noutra mídia, e pelo que sei Star Wars faz isso bem com histórias originais; Doctor Who faz a mesma coisa, e se eu não me engano, Star Trek também. Quanto mais histórias e expansão do universo, melhor!

      Bjjss e até ;)

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