Memórias de Capitu

04 junho 2016
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Hoje é sexta-feira, 11 de março; uma data comum. Eu deveria estar feliz, final de semana chegando, de sábado eu não trabalho… mas esse fim de semana será diferente. Você ficou sabendo daquela lei lá que votaram no dia 8 de março? É uma que garante que as mulheres vítimas de violência recebam gratuitamente cirurgia reparadora pelo SUS em caso de violência grave. Ouvi isso na rádio CBN. Tinha um moço sentado no banco da frente no mesmo ônibus que eu, e ele estava ouvindo essa rádio no celular; sem fone, sabe como é. Pensei “nossa, que presentão!”. A mulherada desse Brasil estava precisando disso mesmo. Eu estava precisando. O caminho até a minha casa nunca foi tão feliz. Cheguei na minha quitinete tão contente que tive que me segurar para não entrar gargalhando e acordar meu filho. Naquela noite, assim que eu tirei a roupa para tomar banho, me obriguei a olhar para a minha barriga pela primeira vez em anos. Tinha umas cicatrizes feias e grandes, com queloide e tudo. Eu tinha mó vergonha de por umas blusinhas mais curtas. Eu costumava achar minha barriga bonita. Chapadinha mesmo depois de um filho. Me sentia bem com meu corpo. A história dessas cicatrizes é longa e dolorosa. Marido ruim, você entende, né? Quando a gente ia no hospital, ele dizia para os médicos que eu me auto mutilava. As pessoas meio que me olhavam como se eu fosse doida, porém elas cuidavam dos machucados. Quando estava sarando ele me machucava de novo. Ciúmes. Eu entendia, claro. Mas quando ele quis por a mão no meu filho, aí não, aí rodei a baiana mesmo, saí de casa e até hoje dou meus pulos para dar de tudo ao meu pequeno. 

No dia 9 fui num posto de saúde que ficava perto da minha casa. As moças que me atenderam não sabiam da tal lei, demoraram perguntando coisas, até que por fim uma alma caridosa disse para elas que essa lei foi votada no dia anterior. Pegaram um papel de rascunho mesmo e começaram a anotar as coisas que eu falava. Em dado momento, a moça que me atendia me pediu o número do B.O. “Não tenho”, falei. Claro que eu não tinha. Eu nunca denunciei meu marido, porque eu achava que ele ia mudar e também sentia um pouco de medo. Se eu falasse alguma coisa e não desse em nada, eu teria que voltar para casa no fim do dia e enfrentar a raiva dele. “Não, não. Sem boletim de ocorrência, eu nunca fiz um”. A mulher me olhou, desconfiada. Disse que sem o B.O. não seria possível passar por cirurgia nenhuma. Até procurou a lei ali no celular dela mesmo e me mostrou. E era verdade, precisava de B.O. 

Voltei para casa cabisbaixa. É duro quando você quase consegue algo que queria muito. Mas a vida continua. Estamos evoluindo devagarzinho, como trabalho de formiguinha. Dessa vez, pelo menos as mulheres que tiveram condições de denunciar a agressão que sofreram foram beneficiadas. A vida continua, né. Mas hoje, dia onze, eu estava aqui sentada na beirada da cama e lembrando disso, e bateu uma tristeza, uma angústia tão grande, que sem perceber comecei a chorar. Meu filho perguntou “Mamãe, por que você tá triste?”. Enxuguei o rosto e falei que estava chorando de alegria porque hoje é meu aniversário. “Quantos anos?”. “Dezenove”, falei “quase duas mãos cheias”. Ele me abraçou e me desejou os parabéns. 




Lady Thaw
É uma sonhadora, amante de livros e literata. Adora cantar, dançar, ler e conversar. Um dia terá um gato preto chamado Plutão.
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