Asilo Arkham - Uma Séria Casa em um Sério Mundo

13:20




Sinopse
Os internos do Asilo Arkham fazem um motim, tomam os funcionários do hospício como reféns e exigem a presença de Batman.
Mais do que enfrentar seus velhos inimigos, o herói precisará confrontar a si mesmo e ao horror de sua própria loucura.
Paralelamente, o leitor conhecerá a trágica história do fundador do hospício.

"Enough madness? Enough? And how do you measure madness? " - The Joker
 Título (original): Arkhan Asylum - A Serious House on Serious Earth
 Roteiro: Grant Morrison
 Arte: Dave Mckean
 Páginas: 216
 Graphic Novel publicada no Brasil pela Editora Panini

 Quando comecei a me aventurar nos tão famigerados quadrinhos, não pensei que fosse algo sério. Não pensei que passaria além de umas risadas, uma simples descontração, nunca ultrapassando uma reflexão momentânea, seguindo sempre para o caminho do também tão famigerado entreterimento. Diversificar minhas leituras, conhecer uma cultura em alta, mas no fundo uma das principais razões era me divertir, e claro que isso aconteceu nos poucos títulos já lidos. Sempre tive uma visão – como a maioria das pessoas têm – de rebaixamento dos quadrinhos, principalmente dos (ocidentais) de Super-Heróis; não vou mentir, se não fossem pelo grande boom desse macro gênero no cinema, eu não iria atrás de HQs – e consequentemente não voltaria aos mangas tampouco.
 Talvez o que quero expressar aqui é meu despreparo para o choque que essa Graphic fez em mim. Não esperava pensar nela a noite inteira, ao mesmo tempo em que tentava esquecê-la. Havia pensado em escrever assim que a terminasse, mas as palavras me fugiam, pois elas mal existiam na minha cabeça, tamanho meu estupor. E como chovia e o cômodo estava escurecido, o clima ajudou, tanto fora quanto dentro da história. A verdade é que depois de ler A Piada Mortal (não se considere um fã do Coringa se ainda não leu), resolvi continuar a ler os clássicos da DC Comics, principalmente Batman. Sim, o herói que infelizmente virou puro merchandising marca de roupa, tem ótimas histórias, mas pelo modo como a mídia o trata sempre me deixou com um pé atrás. Bem, pelo menos ate hoje. Até essa história.
 Para os não informados (vamos enfrentar a verdade, a maioria nunca leu nada do Batman, só com o audiovisual como referencia), Arkhan é um asilo para criminosos insanos, sendo teoricamente tanto uma prisão, quanto um hospital psiquiátrico. É para lá que Batman envia a maioria dos criminosos fantasiados que enfrenta, com a mínima esperança deles se curarem de sua insanidade. Eles escapam, ele os coloca de volta. Um ciclo sem fim, principalmente se tratando do Coringa. Na história, os internos fazem um motim. O sanatório todo se revolta, fazendo todos os funcionários de refém, com uma única exigência: A presença do homem morcego.
 Bruce não vê alternativa, a não ser acatar a exigência e acaba indo para o Arkhan. Lá, os pacientes insanos andam sem perspectiva entre os reféns assustados, com o Joker Coringa mais ou menos no comando da situação. Em diálogos muito bem elaborados e em desenhos assustadores, somos levados a loucura não só das pessoas, mas do próprio ambiente, cujas garras parecem querer tocar Bruce Wayne. é mais do que claro o desejo do Joker de ver Batman enfrentar a decadência e loucura que os internos – os inimigos de Batman – enfrentam todos os dias. Nesse ponto, a jornada de Batman se inicia, onde ele se vê obrigado a percorrer os corredores sombrios daquele inferno, pontilhados de criminosos insanos.
 Entre as cenas terríveis e claustrofóbicas dentro do Arkhan, acompanhamos também a historia do Fundador do Asilo – de fato, a Graphic se inicia com o fundador ainda criança. Porém, longe de ser os flashbacks explicativos e sem emoção, temos um grande trabalho em terror psicológico, com cenas e pensamentos tão grotescos quanto perturbadores. Realmente, o clima perturbador é presente o tempo todo, reforçado pela escolha do estilo de arte gráfica. Com desenhos aparentemente sem contornos, eles se desenrolam ora esfumaçados, ora realistas; colagens, sombreamentos, pinturas, todas as técnicas utilizadas se empenham para nos presentear com imagens soturnas, melancólicas, assustadoras. Eu não tenho medo de palhaços, mas o Joker daqui dá arrepios.
 A sensação é de ler um livro de Stephen King, porém com o desconforto já abrindo a história, e seguindo acima até o final, sem pausas para respirarmos. O roteiro é excelente, mas é impossível imaginar que o clima se manteria sem essa arte gráfica, já que ela e o roteiro se encaixam quase como uma entidade. Um verdadeiro romance gráfico. Na verdade, imagino facilmente a história como um romance, mas ao mesmo tempo não consigo imaginá-la fora desse universo desenhado, que foi tão impecável. Sem dúvida uma obra de Arte.



 As discussões a respeito da insanidade humana são pontos altos. Pacientes fazem suas próprias alegorias a respeito, Batman tenta manter-se a margem e o fundador conta sua vida no diário, aonde pouco a pouco, vai perdendo a sanidade. Com o objetivo de transformar a mansão da família num asilo psiquiátrico – por não concordar que doentes mentais sejam tratados como criminosos comuns na prisão – ele acaba ajudando a construir sua ruína. De fato, Arkhan Asylum parece uma divindade que foi nascida da loucura e se alimenta dela através das décadas. A loucura como principal personagem é indomável, fazendo com que um dos personagens dê a entender que lá todos são produtos bizarros de um sonho, e Bruce é o sonhador.
 É a jornada de Bruce Wayne para manter sua Razão, enquanto os corredores sombrios tentam levá-lo a perdê-la por completo. Irônico que a maioria dos loucos que “tentam” desequilibrá-lo, foram postos lá por ele.  Vemos as consequências dessa perda num nível interno, refletidas no caótico sanatório. 
 Todos os aspectos são excelentes e como não podia deixar de ser, recomendo, principalmente para aqueles que desejam uma leitura gráfica de qualidade; reafirmo que Arkhan Asylum é uma leitura perturbadora, ou seja, se quiser uma história leve de Super-Heróis, passe longe. Do contrário, mergulhe profundamente.
   
       

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2 comentários

  1. Não sou muito fã nem entusiasta de histórias de super heróis mas confesso que essa, em particular, me chamou atenção, por ter de plano de fundo um Asilo, tenho um interesse, um tanto quanto macabro, em histórias que se passam nesses lugares, enfim, ótima a resenha, parabéns.
    Estou seguindo e adorando o blog.
    Beijos.
    Tenho um blog no qual falo sobre filmes, series e cultura no geral. Se puder dar uma conferida ficarei muito grata: http://cineleva.blogspot.com/ :)

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  2. Acredite, eu também não sou a maior entusiasta dessas histórias de super-heróis; vejo os filmes, mas na hora de ler, sempre prefiro as mais sombrias ou mais pé no chão, como as obras clássicas do Batman - onde o Joker ou o Asilo é o foco, pois eu gosto de histórias sobre loucura. Recomendo que você leia - nem parece uma história de super-herói; e não é :)
    Dei uma olhada no seu Blog e adorei, já estou seguindo.
    Beijos.

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