Coraline | Crítica do Livro

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Título: Coraline
Autor: Neil Gaiman
Ilustrador: Dave Mckean


Sinopse:No livro, a jovem Coraline acaba de se mudar para um apartamento num prédio antigo. Seus vizinhos são velhinhos excêntricos e amáveis que não conseguem dizer seu nome do jeito certo, mas encorajam sua curiosidade e seu instinto de exploração. Em uma tarde chuvosa, a menina consegue abrir uma porta que sempre estivera trancada na sala de visitas de casa e descobre um caminho para um misterioso apartamento ‘vazio’ no quarto andar do prédio. Para sua surpresa, o apartamento não tem nada de desabitado, e ela fica cara a cara com duas criaturas que afirmam ser seus “outros” pais. Na verdade, aquele parece ser um “outro” mundo mágico atrás da porta. Lá, há brinquedos incríveis e vizinhos que nunca falam seu nome errado. Porém a menina logo percebe que aquele mundo é tão mortal quanto encantador e que terá de usar toda a sua inteligência para derrotar seus adversários.

 Coraline foi minha estreia com um livro de Neil Gaiman, mas eu já presenciara seus dotes em dois roteiros de Doctor Who, série britânica queridinha do autor. Famoso por sua Literatura Fantástica Dark, sempre me interessei por começar a lê-lo, sem nunca começar de fato. Só quando vi uma recomendação do livro no canal do Cabine Literária, realmente iniciei a jornada nas terras escuras do escritor.   
 A história é simples. Coraline e seus pais se mudam para uma nova casa, cujas partes são dividas entre eles, duas senhoras ex-atrizes e um velho que mora na parte de cima com seu circo de ratos. Seus pais trabalham em casa, mas apesar disso estão sempre muito ocupados. Coraline ama explorar os jardins a volta da nova casa, encorajada por seus vizinhos. Porém, num dia de chuva ela é obrigada a permanecer dentro de casa. Quando começa a importunar o pai, este lhe dá ideia dela explorar a casa, contando quantas portas e janelas existem. É nessa excursão que a menina acaba encontrando a única porta trancada, dentro da sala de visitas.
 Quando implora para a mãe abri-la, descobre que por detrás dela só há uma parede de tijolos. Mas a coisa muda de figura ao Coraline aproveitar estar sozinha, e roubar a chave. Misteriosamente, dessa vez, não há parede de tijolos e sim um túnel escuro e longo. Do outro lado, há outra versão de sua casa, como um reflexo de sua realidade. Lá, seus pais (sua Outra mãe e Outro Pai) lhe dão a atenção que sempre quis, seus vizinhos não erram seu nome, a comida é maravilhosa e os brinquedos parecem magicamente vivos. Tudo é fantástico. Pelo menos até Coraline descobrir o que precisa fazer para permanecer neste mundo, e a verdade terrível que a Outra mãe esconde. 

Abri-se aqui um fato que faz toda a diferença – as pessoas desse Outro mundo têm botões no lugar dos olhos. Detalhe mínimo que fica cada vez mais arrepiante ao passar das páginas.

“Tome cuidado com o que deseja” é uma frase clichê, mas que cai muito bem nesta história. O enredo parece uma versão mais sombria de Alice no País das Maravilhas, considerando o conceito de realidades paralelas e garotas que viajam entre elas. É claro que enquanto a ideia do sonho é pincelada para Alice, os perigos de Coraline são muito reais, praticamente como uma história de sobrevivência infantil.

  Coraline é esperta, exploradora e corajosa, ás vezes um pouquinho prepotente, mas sem cair no buraco de crianças irritantes da literatura. É interessante a escrita ser moldada no entendimento infantil dela, sendo simples, porém carismática. Uma escrita fácil, minimalista. Alguns leitores não gostam desse tipo de escrita, mas seria esquisito um livro rebuscado quando o ponto de vista (mesmo que se tratando de terceira pessoa) seja de uma criança. É necessário prezar pela verossimilhança!

 Muitas vezes a coragem de Coraline é exagerada, mas como estamos falando de um livro infantil, isso passa. Os pais (reais) que nunca lhe davam atenção, devido ao trabalho é uma temática sempre muita utilizada em várias mídias, geralmente se encerrando com uma lição de moral, em que a/o protagonista consegue, enfim, o amor da sua família. Não darei spoilers (não há grandes spoilers a respeito de Coraline, tampouco), mas uma lição valiosa nas páginas é que sua vida poderia ser muito pior do que realmente é. Quanto mais perfeito algo é, mais sombrio pode ser os bastidores.

 Há elementos mais ou menos comuns na história. O Desafio (a/o protagonista propõe um desafio para a/o vilão, cujo resultado pode ser mortal) e uma espécie de caça à itens pelo cenário. Ambos explorados de uma maneira um pouquinho cruel. Há fantasmas também – fantasmas de crianças – que protagonizam a ótima cena do quartinho escuro. Percebe-se que se Gaiman tivesse pesado a mão, a faixa etária do livro subiria facilmente. É comum no Reino Unido (onde o autor nasceu) programas infantis não serem perfeitos e coloridinhos como os são na América e Coraline reflete isso. Nos anos 60 quando a série Doctor Who (até então infantil) estreou na Inglaterra, os quatro primeiros episódios tiveram sequestro, assassinatos a facadas e uma caverna feita de crânios humanos. Coraline não chega a tanto – ou será que chega? – mas é melhor paramos de enfeitarmos tudo quanto o possível para as crianças, e mostrá-las que o mundo não é a Disney. 

 Pessoalmente, fiquei satisfeita ao terminar, não só pela história, mas porque foi o primeiro livro em inglês que li – sem contar os livrinhos feitos para quem está treinando. Para quem já tem um bom vocabulário e quer se arriscar, é totalmente recomendado. Não são tantas descrições e é rápido! E há sempre a opção de anotar palavras desconhecidas para pesquisar depois. O importante é compreender a história.

 Coraline foi adaptado para filme, tendo sido escrito e dirigido por Henry Selick. Assisti ao filme semanas depois de terminar a leitura, e vi muitos comentários de adultos que se assustaram com o filme, coisa que não acontecia com as crianças. Não tive medo ou receio durante o filme – salvo a parte final com a Outra Mãe e a cena do Outro Pai no piano. É o tipo de filme que desperta uma emoção a mais para quem não leu o livro. Talvez crianças nem gostem tanto dele, o que me leva a crer que certas coisas são feitas para aos mais velhos, mesmo que indiretamente.

 Depois dessa, é impossível eu não continuar a ler Neil Gaiman. Não sei exatamente como seguirão minhas leituras, mas ele terá seu espaço merecido, com certeza!

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6 comentários

  1. Li Coraline há muito tempo. Ensino Fundamental, mas lembro da história. É bem interessante, e o filme a meu ver foi fiel. Neil é um escritor fantástico e com sua resenha fiquei com vontade de pegar mais livros dele para ler haha
    Parabéns pelo blog e pela resenha! Beijos

    www.taliesinperdido.com.br
    www.conversasdeleitor.blogspot.com.br

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    1. Sim, a adaptação foi fiel até onde devia ser, pegou bem o clima do Gaiman. Provavelmente meus próximos dele serão "O oceano no fim do caminho" (na época do lançamento não encontrei UMA resenha negativa que seja!) e Sandman. É o tipo de autor pra ler a obra inteira :)
      Beijos, e obrigada pelo comentário!

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  2. Aiiii bateu até vontade de ler!
    E esse desenho da Cora que maravilhoso hein?!
    Adorei a resenha!

    Beijooo♥
    surewehaveablog.com.br

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    1. Leia mesmo :)
      Se puder leia em livro físico, pois há várias ilustrações, muito bem feitas e até assustadoras. O livro foi transformado em quadrinhos (Graphic Novel, mais precisamente), talvez seja interessante dar uma olhada também!
      Beijos e obrigada pelo comentário!

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  3. Minha resenhadora número 1! Um dia vou escrever como você u.u :D

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    1. Obrigada, Wana! Você não sabe o quanto eu arrumei essa resenha, acho que por isso ficou grandinha...Ainda bem que ficou decente :D

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